A estudante de fisioterapia Betânia de Freitas de Souza teve a idéia em 2000. Juliana de Lavor Lopes,estudante de relações empresariais, gostou. E o que era uma iniciativa de duas jovens universitárias, responsável por um projeto numa instituição social de Volta Redonda (RJ), é hoje a ONG Universitário Voluntário – Instituto de Desenvolvimento, Estudos e Integração de Ações Sociais,que responde por mais de uma dezena de projetos sociais e está presente em toda a região Sul Fluminense. Nesta entrevista ao Portal do Voluntário/V2V Brasil, Betânia, presidente do instituto, e Juliana, vice-presidente, contam como a Universitário Voluntário conseguiu cadastrar 2500 universitários voluntários, que trabalham em equipes multidisciplinares.

Quando foi criado o Programa Universitário Voluntário? A iniciativa partiu dos estudantes ou das escolas superiores e universidades?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - O Programa foi idealizado em 2000, mas só começamos a atuar em 2001. Já no primeiro ano nos impressionamos com a quantidade de universitários inscritos.

A idéia de promover o voluntariado entre universitários surgiu da observação de que vários universitários queriam ajudar as instituições sociais da região, mas não sabiam como e nem o que podiam oferecer. Muitas vezes as próprias instituições não sabiam como o universitário podia ajudar, afinal ele não era um profissional que podia fazer atendimentos. Isso frustrava os jovens que gostariam de doar parte do seu tempo e da sua garra para melhorar a qualidade de vida do outro.

Quando iniciamos o Programa, iniciamos dentro de uma ONG da região, a Casa da Criança e do Adolescente. Os universitários entravam no Programa, eram capacitados e passavam a atuar dentro dos Programas e Projetos desenvolvidos por esta ONG. Tudo foi idealizado por universitários e depois de algum tempo atuando é que surgiram as parcerias com algumas instituições de ensino da região.

No que vocês acreditam?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Acreditamos que a solidariedade é capaz de transformar muitas vidas, inclusive a nossa. Temos a consciência da importância de nossa participação na transformação de uma nova sociedade. E fazemos parte de um batalhão de seres que lutam pela preservação da vida, cidadania e garantia de direitos.

Nós não somos assistencialistas, mas lutamos para que crianças, adolescentes, gestantes e toda família recebam assistência digna e que todos os direitos possam ser garantidos.

Não fazemos passeatas, não levantamos bandeira em praça pública. Nós atuamos nas comunidades, acreditamos na prevenção e no trabalho de informação.

É bem verdade que entramos no Programa para ajudar, porque todos nós tínhamos um sentimento em comum, de solidariedade, de necessidade de fazer algo para melhorar a vida do outro, seja no atendimento na comunidade ou na administração do Programa.

Mas com o passar do tempo nós percebemos uma coisa muito interessante. Nós, os universitários, fomos e somos os maiores beneficiados com nossas ações. São vivências diferentes, valores reformulados e estar no Programa hoje é fazer a vida valer a pena, é sentir que estamos plantando uma semente que depende de cada um para poder germinar, desenvolver e gerar bons frutos.

Esta experiência é importante também para a formação acadêmica, para a formação do futuro profissional?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Esse trabalho contribui para nossa formação acadêmica, mas é muito mais importante o quanto contribui para nossa formação humana.

Somos agentes de transformação e temos a missão de capacitar multiplicadores. Hoje no Brasil apenas uma pequena parte da população, menos de 1% dos jovens brasileiros, conseguem chegar a uma Universidade. Isso significa que a educação em nosso país ainda não é prioridade. Nosso trabalho tem também o objetivo de incentivar e motivar a juventude brasileira.

Sabemos que um bom profissional não é feito apenas de boas notas e bom currículo, mas também de consciência e cidadania. Por esse motivo, a qualidade do ensino depende de algo mais, depende de ações solidárias, contato direto com vidas, com pessoas de diferentes raças e classes sociais.

Hoje dedicamos parte do nosso tempo a esse trabalho. Acordamos cedo, subimos o morro, colocamos o pé na lama, ajudamos a resolver problemas, redigir texto, atender uma criança, pôr uma carta no correio. Poderíamos estar sentados na frente da tv, dormindo ou sem compromisso, mas certamente não estaríamos neste momento sentados e reunidos, pensando e tentando traduzir neste pequeno texto, o quanto é bom ser parte deste trabalho.

Às vezes nem nos damos conta de como um trabalho pode fazer diferença em nossos dias e em nossas vidas. Só nos damos conta e paramos para pensar quando percebemos o efeito que ele pode causar na vida das outras pessoas.

No ano passado, o programa passou a ser a ONG Universitário Voluntário – IDEIAS (Instituto de Desenvolvimento, Estudos e Integração de Ações Sociais). Um programa localizado em Volta Redonda passou a atuar regionalmente, no Sul Fluminense.

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Essa mudança deu para a gente um campo maior de atuação. Estávamos enfrentando um problema sério e ainda estamos enfrentando: temos muitos universitários cadastrados mas não temos tantas vagas. Quando o Programa atuava na Casa da Criança e do Adolescente a atuação estava limitada à criança e ao adolescente. No entanto, os universitários tinham vontade de atuar junto a idosos, deficientes físicos e qualquer um que precisasse de uma mão amiga.

Essa transformação trouxe para nós a criação de programas sociais desenvolvidos por nós mesmos junto à comunidade e a parceria com diversas instituições sociais da região sul-fluminense.

Para vocês, o que é ser voluntário? Qual o papel do voluntariado na vida dos estudantes? E nas atividades da universidade?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes – Ser voluntário, antes de tudo, é saber que a sua atuação é responsável por alguma mudança na vida de algumas pessoas e, principalmente, saber que somos peças chaves na transformação social deste nosso país. Na construção de um mundo mais justo, onde todos tenham o direito de ser cidadãos plenos.

O voluntariado contribui para a formação humana, e não somente acadêmica, do universitários, pois ele aprende a lidar com diferentes realidades sócio-econômicas e aprende também que escutar ainda é a melhor forma para entender e ajudar o outro.

O Universitário Voluntário – IDEIAS é responsável hoje por projetos em diversas áreas. Fale um pouco sobre estas iniciativas.

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Desenvolvemos diversos Projetos, pois os universitários atuam de forma multidisciplinar. Os universitários de agronomia atuam em conjunto com os de fisioterapia, enfermagem, engenharia e administração para que cada Projeto preencha a necessidade de cada comunidade que precisa de nossa ajuda.

Dentre os nossos Projetos podemos destacar:

SOLIDARIEDADE SEM FRONTEIRAS

Desenvolver atividades contínuas de prevenção, educação e desenvolvimento comunitário, priorizando o atendimento e a melhoria da qualidade de vida de comunidades de difícil acesso, sempre focando a necessidade e a realidade de cada comunidade.

EDUCART (Educando através da Arte)

Desenvolver atividades que priorizem a utilização de recursos artísticos no processo de educação, dinamizando o aprendizado e estreitando o vínculo entre o educador e o educando. Objetiva a reintegração social, o resgate da auto-estima e o desenvolvimento individual e coletivo.

PAHI (Projeto de Acompanhamento Hospitalar Integral)

Minimizar a angústia, o stress da criança hospitalizada, assim como o da família. Promover atividades que priorizem a informação e prevenção, abordando temas de importância ao desenvolvimento individual e comunitário.

CUIDARE AD AETERNUM

Desenvolver ações de prevenção e orientação sobre preservação ambiental, consumo responsável e desenvolvimento sustentável. Trabalha os valores, a responsabilidade e a ação de transformação ambiental de cada indivíduo dentro da sociedade.

PRÓ-SAÚDE (Prevenção à Reinternação através de Orientações de SAÚDE)

Desenvolver ações de prevenção e/ou intervenção que contribuam com a redução dos índices de reinternação, por meio do acompanhamento multidisciplinar, cuidado humanizado no ambiente hospitalar e/ou domiciliar, contribuindo na reabilitação, saúde e qualidade de vida.

Como é o processo de sensibilização, mobilização e engajamento dos universitários? O que é oferecido aos estudantes? Acontece de haver mais estudantes querendo ser voluntários do que as oportunidades que vocês conseguem disponibilizar?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Esse realmente é um dos nossos maiores problemas. Temos mais universitários do que local e formas para atuação destes. Sabemos de várias comunidades que precisam de apoio, mas não temos condições e recursos para atuar em todas elas ainda.

Quando começamos o Universitário Voluntário, era o boca a boca que valia muito. Os universitários ficavam sabendo por outros e nos procuravam. Atualmente, fazemos uma apresentação do Universitário Voluntário dentro das universidades no início de suas atividades, mas ainda temos o boca a boca como maior divulgação, pois o universitário que começa a atuar fica tão empolgado que passa essa empolgação para os outros.

Depois que o universitário se cadastra, ele passa por uma capacitação que envolve diversos temas, uns gerais e outros específicos para a atuação em cada Projeto ou instituição social. O universitário recebe um certificado após um ano de atuação, desde que sua avaliação tenha sido boa, ou seja, que tenha realmente se engajado no Projeto ou instituição e que tenha participado da capacitação.

Que tipo de atenção é dado ao estudante que procura o programa e não consegue ser voluntário por falta de oportunidade nos projetos de vocês?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Estamos tentando sempre aumentar o número de instituições parceiras bem como buscando recursos para desenvolver outros Projetos que temos elaborados. Enquanto não conseguimos oportunidade para o universitário, continuamos mantendo o contato com eles por telefone e contamos com o apoio de todos em campanhas que fazemos também para ajudar algumas instituições.

Vocês oferecem apoio também ao estudante que queira realizar uma ação voluntária idealizada por ele mesmo ou apoiar uma iniciativa fora dos projetos do Universitário Voluntário?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Vários universitários que participam de nossa instituição também desenvolvem outros projetos sociais. Eles contam sempre com o nosso apoio técnico quando precisam, estamos sempre veiculando informações que possam criar uma rede de transformação social ainda maior.

Nossa parceria com outras instituições sociais também permite um intercâmbio grande de experiência e conhecimento. Isso permite que de alguma forma possamos ajudar mais outras pessoas.

Em 2000, vocês contaram com perto de 300 universitários voluntários, em 2002 com quase 700. Quantos estudantes foram voluntários em 2003?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Temos mais de 2500 universitários cadastrados, temos também aqueles que já se formaram e agora atuam como profissionais voluntários. Nem todos eles atuam diretamente nos Projetos, mas estão sempre nos apoiando. Esse crescimento pode ser explicado pelo fato do trabalho voluntário trazer mais benefícios para os próprios voluntários, já que descobrimos que podemos fazer a diferença, que somos capazes de criar um mundo melhor. Quando os universitários descobrem que são capazes e que podem transformar vidas o sucesso é conseqüência.

Quantos prêmios vocês já receberam?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Recebemos, em 2003, o prêmio da FENEAD – Federação Nacional dos Estudantes de Administração – Ação Nacional de Estudantes Universitários para Soluções Sociais. Eleito entre os 10 melhores Projetos de Transformação Social do País.

Fomos eleitos também um dos 5 (cinco) melhores projetos de Humanização Pediátrica pelo Congresso Internacional de Pediatria 2002. Fomos finalistas no Itaú Unicef com o Projeto Brincalhona que desenvolvemos em parceria com a Casa da Criança e do Adolescente.

Como se dá a articulação entre o Universitário Voluntário e as organizações e comunidades apoiadas?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - De diversas formas, as instituições sociais nos procuram quando descobrem o trabalho voluntário que é desenvolvido, mas nós também procuramos as instituições cada vez que temos universitários interessados em trabalhar com algo específico desenvolvido por alguma delas. Nas comunidades o contato é direto com os líderes comunitários.

O Universitário Voluntário se relaciona com as iniciativas e organizações de voluntariado de Volta Redonda e do Sul Fluminense?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Claro! E buscamos cada vez mais instituições parceiras pois acreditamos que é com essa rede que podemos transformar nosso país. Um de nossos parceiros mais atuais é a Cruz Vermelha – unidade de Volta Redonda, pois acreditamos que o trabalho do universitário pode ajudar ainda mais em casos urgentes.

Como o Universitário Voluntário se sustenta?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Essa pergunta tem sempre uma resposta difícil. Nos sustentamos principalmente com doações de pessoas físicas que acreditam em nosso trabalho. Estamos buscando a parceria das empresas da região e do país para podermos desenvolver ainda mais projetos e poder atuar de forma mais ampla. Temos vários Projetos mas que não podemos iniciar sem recursos. Gostaríamos realmente que essa questão de recursos financeiros não fosse um problema tão grande. Estamos sempre lutando para estarmos com todos os Projetos de pé.

Afinal, queremos levar este Projeto para diversos lugares pois sabemos da força do universitário para transformar e desenvolver nosso país.

Fale um pouco sobre a cidade de Volta Redonda e sobre a Região Sul Fluminense.

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - A região sul-fluminense não é muito diferente da realidade brasileira. Existem cidades com melhor infra-estrutura e outras com muito poucas condições de atendimento à sua população. A população de baixa renda sofre com a falta de informação, existem casos graves de desnutrição, altos índices de doenças sexualmente transmissíveis, dentre vários outros problemas. São cidades de médio e pequeno porte e que aos poucos recebem a influência das grandes metrópoles, sofrendo também com o tráfico e a violência urbana.

Quantas instituições de ensino superior existem no Sul Fluminense?

Betânia de Freitas de Souza e Juliana de Lavor Lopes - Existem mais de 10 Instituições de Ensino Superior na região, mas a grande maioria, em torno de 90%, é particular.