Rejane Leão Rocha Aguiar, educadora e funcionária pública federal aposentada, dirige, desde 2000, o programa de voluntários do Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP),um dos hospitais filantrópicos mais importantes do Nordeste. Nesta entrevista, concedida em Recife, ela conta o que é ser voluntário num hospital que nasceu para atender crianças e mulheres pobres.

O que é o IMIP?

Rejane Leão Rocha Aguiar - O Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP) é uma entidade não governamental, sem fins lucrativos e reconhecida como entidade pública. Fundado em 13 de junho de 1960 por um grupo de médicos pernambucanos liderado pelo professor Fernando Figueira, tem como objetivo atender mulheres, crianças e adolescentes da população carente com os melhores recursos científicos disponíveis e contribuir para a qualificação de recursos humanos na área de saúde. O IMIP é credenciado pelo Ministério da Saúde como Centro Nacional de Referência para programas de assistência Integrada à Saúde da Mulher e da Criança e pelo Ministério da Educação como Hospital de Ensino. Foi o primeiro Hospital Amigo da Criança, título concedido pela Organização Mundial de Saúde / UNICEF / Ministério da Saúde.

Fale um pouco sobre o doutor Figueira.

Rejane Leão Rocha Aguiar - Fernando Jorge Simão dos Santos Figueira, formado pela Faculdade de Medicina do Recife em 1940, se fez notável não só no campo da medicina como também na política social. O professor Fernando Figueira, como era conhecido, realizou célebres obras em prol da saúde, especialmente em benefício das pessoas carentes. Foi um homem importante, brilhante em sua trajetória. Era amado e admirado por todos. Sempre demonstrou seu carinho pela mãezinha e abraçou com amor as crianças carentes do IMIP. Faleceu no dia primeiro de abril de 2003, aos 84 anos.

Como surgiu o IMIP Voluntário?

Rejane Leão Rocha Aguiar - O IMIP Voluntário foi idealizado e criado em 1990 pelo Professor Fernando Figueira, através da Fundação Alice Figueira de Apoio ao IMIP. Surgindo assim pela necessidade de humanizar o atendimento aos pacientes , meta de vida de trabalho do Professor Fernando Figueira, que não media esforços para implantar novos serviços e atividades para melhorar a condição social.

Como os voluntários trabalham?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Nossos voluntários são distribuídos pelos 33 setores do IMIP. Cada setor conta com um coordenador, que acompanha os serviços desenvolvidos pelos voluntários. Os voluntários trabalham 4 horas semanais, pela manhã ou à tarde, totalizando 16 horas mensais. Nossos coordenadores fazem reuniões setoriais, nas quais trocam idéias e ouvem sugestões que são levadas à Coordenação Geral através de relatórios. Além dos coordenadores, contamos com um grupo de assessores que ajudam na parte administrativa e auxiliam no acompanhamento dos serviços, podendo tomar iniciativas. Quando surgem algumas dificuldades, podem ligar para a Coordenação Geral ou procurar a presidente da Fundação Alice Figueira. O ideal seria que a Coordenação Geral pudesse estar presente diariamente no IMIP, pois o trabalho exige uma grande responsabilidade e dedicação, mas isso se torna inviável. Por isso a presença da coordenadora geral resume-se a três dias por semana, de manhã e de tarde.

Quantos são os voluntários?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Em dezembro de 2003, encerramos o ano com 381 voluntários. Hoje estamos com 440 na ativa. Temos voluntários licenciados por motivos de saúde, algumas desistências motivadas por trabalho e transferências para outros municípios. O que é natural, pois o voluntariado é rotativo.

Que serviços o corpo de voluntariado oferece à clientela do hospital?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Primeiro é importante destacar como fator indispensável à gratuidade do nosso serviço. Temos como objetivo ser uma PRESENÇA acolhedora , de escuta, de respeito; ILUMINADORA de situações conflitivas, pessoais ou sociais; MEDIADORA nas relações pessoais e de busca de solução; HUMANIZADORA trabalhando “ao lado” e não em lugar do ajudado; e
POTENCIALIZADORA da capacidade das pessoas para participarem na
promoção.

Os serviços são desenvolvidos de diversas formas, a fim de tornar mais agradável e resolutivo a permanência dos nossos pacientes no IMIP. Citamos alguns exemplos: Sala de Jogos da Fundação Alice Figueira – empréstimos de brinquedos, controle e conferência dos mesmos aos diversos setores do hospital; manutenção e higienização do acervo; organização de encontros de jogos com as crianças e familiares e ainda desenhos , pinturas, leituras, contos infantis, promoção de festas , conforme o calendário comemorativo.
Setor Ginecologia e Mãe Canguru: temos voluntários com um grande potencial e equilíbrio emocional. Os serviços são desenvolvidos para evitar ociosidade, pois as mães permanecem por um longo período no hospital, afastadas dos seus familiares, chegando a permanecer três a quatro meses internada. As atividades realizadas são trabalhos artesanais (confeccionando bolsas em fitas, retalhos, fuxicos, crochê, pinturas) e serviços de estética e beleza (como corte de cabelos, penteados e higienização da unhas).

Além disso, promovemos palestras e cursos, ensinando a fazer chocolates, doces e salgados, como aproveitar os alimentos e evitar desperdícios. Desta forma podemos garantir um aprendizado para o aumento da renda familiar, quando deixarem o hospital.


Como IMIP Voluntário se sustenta?

Rejane Leão Rocha Aguiar - O IMIP Voluntário é auto-sustentável. Dedicamos parte do nosso tempo sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou ação de bem estar social ou outros campos. Pagamos para trabalhar! Custeamos nosso deslocamento de casa ao IMIP, alimentação, bata, roupas, sapatos, perfumes etc. Mas fazemos com amor e fraternidade visando o social. Nossos voluntários, o IMIP e FAF conseguem doações que são encaminhadas ao bazar do IMIP, localizado num espaço determinado a fim de atender tanto as pessoas internas (pacientes, familiares, médicos, funcionários, Voluntários) como o pessoal externo (pessoas da comunidade).

Queremos assim:
1)Atender pessoas carentes de forma a permitir que adquiram mercadorias necessárias a preço super módicos;
2) – Conseguir renda, que é revertida aos próprios pacientes na forma de doações, na melhorias das condições de atendimento, em medicamentos.

Conforme nosso regulamento 80% por cento da renda com as vendas é destinada às crianças do IMIP e 20% fica disponível em uma conta bancária em nome do voluntariado e controlada pela Fundação Alice Figueira , que nos atende quando solicitamos.

O que vocês exigem da pessoa que quer ser voluntária no IMIP?

Rejane Leão Rocha Aguiar - A nossa exigência é que o voluntário deve procurar o IMIP em sua totalidade, participando de todos os setores e obedecendo a todas as regras estabelecidas. Nessa nova experiência deve ter desprendimento para tolerar aborrecimentos, pois como em qualquer trabalho o convívio com o ser humano e suas diferenças de personalidade e de opinião requer diplomacia, discrição, equilíbrio, humildade e perseverança. O voluntário deve estar atento às necessidades da instituição aproveitando todas as oportunidades que por ventura surgirem. Entusiasmo e alegria sem dúvidas são características fundamentais do voluntário, que deve sentir orgulho do seu uniforme.

Normalmente existe nos hospitais uma certa tensão entre os funcionários, o corpo médico e os voluntários. Como é o relacionamento entre os voluntários e o pessoal profissional no IMIP?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Considerando que o IMIP é uma organização constituída por pessoas que realizam trabalhos com objetivos comuns, deve-se atender para as regras simples de convivência e que na maioria das vezes passam pelo respeito à individualidade. Houve conflitos no início dos trabalhos. Começamos com 250 voluntários, causando um verdadeiro choque, deixando criar nos funcionários efetivos uma insegurança em função de um possível interesse do voluntariado pelo trabalho. Surgiram assim algumas dificuldades. De imediato, detectado o problema, procuramos manter boa comunicação com todos os setores, procuramos o Recursos Humanos do IMIP e mostramos que havia a necessidade de que todos no hospit6al conhecessem bem o voluntariado. Os coordenadores de setores foram orientados para a formação de equipes coesas e produtivas, respeitando as diferenças individuais e promovendo a integração entre todos.

Quais foram os resultados destes esforços?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Os resultados foram gratificantes, os conflitos foram administrados, os valores começaram a surgir, o grau de confiança foi aumentando, o reconhecimento é gratificante. Existem hoje 33 setores no IMIP com voluntários e temos ainda temos solicitações para atendermos a mais dois novos setores. Ficamos gratificados ao sentirmos que o trabalho está sendo aceito por todos.

Para a senhora, o que é ser voluntário?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Para mim, ser voluntária é muito importante. É um privilégio e um aprendizado. Pois a alegria e o amor que me levaram a ser útil a alguém são as maiores recompensas que eu poderia desejar. Tenho o coração aberto para compartilhar e a mente pronta discernir e as mãos dispostas a trabalhar. Considero o trabalho voluntário um aperfeiçoamento, uma libertação espiritual, uma força de fazer o bem sem olhar a quem.

Se uma pessoa quiser ser voluntário ou voluntária no IMIP, o que ela deve fazer?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Ligar para o telefone (81) 2122-4725 e falar com a nossa secretária, senhora Janaína Conserva , ou vir à Fundação Alice Figueira de Apoio ao IMIP e procurar a sala do voluntariado. Nosso endereço é: Rua dos Coelhos, 300, Boa Vista, Recife.

Se alguém ligar hoje para a senhora Janaína, quanto tempo vai levar para poder trabalhar no hospital e o que ela vai fazer até começar a trabalhar?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Precisamos de algum tempo , porque o nosso trabalho não é tão simples , seguimos as normas obedecendo a um sistema de trabalho de acordo com o nosso regulamento. O candidato terá que preencher uma ficha de inscrição, passar por uma entrevista e, estando apto, submeter-se a um treinamento. Todo o processo demora em torno de 30 dias.

As pessoas ficam muito preocupadas, quando decidem trabalhar em um hospital, por ser um lugar de doença, sofrimento? Como é que o voluntário pode entrar no hospital e não sofrer além da conta?

Rejane Leão Rocha Aguiar - Na seleção dos candidatos tentamos verificar se o perfil é adequado, observando o estado emocional de cada um. Quase sempre nesta avaliação verificamos características emocionais que nos levam a tomar medidas preventivas, no sentido de não introduzir no contexto do voluntariado pessoas com conflitos pessoais e dificuldades de relacionamento com colegas e pacientes. Não admitimos todas as pessoas que querem ser voluntários neste grupo especifico da área de saúde.

O IMIP Voluntário tem algum recurso de assistência psicológica aos voluntários, que os ajudem a administrar melhor as emoções?

Rejane Leão Rocha Aguiar - O IMIP sim possui um grupo de psicólogos que atuam dentro do hospital com os pacientes. Nós voluntários, não. Esta é uma oportunidade para nós pensarmos a respeito. Normalmente, se houver um problema emergencial, é dada uma assistência imediata no IMIP e em seguida o caso é encaminhado a outro hospital.