Você sabia quanto a cada dia o terceiro setor ganha importância e cresce no Brasil? Quanto ele oferece oportunidades de intervenção social e política para pessoas e organizações? Conheça melhor esta realidade, lendo esta entrevista do professor Luiz Carlos Merege, criador e diretor do Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS) da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. O CETS, além de ser pioneiro, tornou-se uma referência acadêmica obrigatória. O professor Merege é um dos estudiosos e consultores mais requisitados para palestras e projetos em todo o país.

Como o senhor descobriu o Terceiro Setor?
Luiz Carlos Merege -
Descobri o terceiro setor através da campanha do Betinho, em 1993. Era diretor administrativo da Escola de Administração de Empresas de São Paulo – Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP) – e organizei um comitê com a participação de professores, alunos e funcionários para atuarmos na campanha. Iniciei, então, contatos com organizações sociais que me impressionaram pelos serviços que prestavam às comunidades onde atuavam.

O que mais o cativou?
Luiz Carlos Merege -
Fiquei impressionado pela eficiência de tais organizações, que com poucos recursos conseguiam atender um número considerável de pessoas, prestando serviços com qualidade e muita dedicação.

Passados tantos anos, o que o mantém no Terceiro Setor?
Luiz Carlos Merege -
O que me mantém atuando no terceiro setor é a convicção de que ele vem desempenhando e desempenhará um papel estratégico na transformação de nossa sociedade. Implícita nesta afirmação está o fato de que o setor tem como objetivo principal a resolução dos problemas sociais que se constituem no grande problema de nosso País.

Qual é o “segredo” do Terceiro Setor?
Luiz Carlos Merege -
As organizações são orientadas por valores que são os mais nobres de nossa civilização, como a solidariedade, a igualdade, a liberdade, a justiça e a ética. Esses valores se constituem no “capital” do setor e garantem sua credibilidade. Frente ao poder estatal e do setor privado o terceiro setor tem um grande desafio, o de manter sua missão, já que dela poderá se desviar pela cooptação política ou econômica.

O que o Terceiro Setor oferece de novo?
Luiz Carlos Merege -
O terceiro setor oferece uma oportunidade para o protagonismo social e político. Ele amplia a área de atuação pública, que, após seu reconhecimento, passou a ser considerada como uma alternativa de intervenção nos problemas sociais. O ativismo político no setor tornou-se uma forma de se fazer pressão sobre o Estado para que este assuma suas responsabilidades sociais.

Isto pode implicar em substituição do Estado?
Luiz Carlos Merege -
O terceiro setor jamais substituirá o Estado na sua função de provedor universal de bens públicos, mas pode, como vem fazendo, questionar a pouca atuação do Estado nas distintas áreas sociais. Dessa forma ele estará colaborando, quando não atuando diretamente, no fortalecimento da democracia e na justiça social.

Que cara tem o Terceiro Setor brasileiro?
Luiz Carlos Merege -
Informações recentes sobre o terceiro setor no Brasil indicam que ele é constituído por cerca de 300 mil organizações e sua movimentação de recursos já atinge 5% do nosso PIB. O primeiro levantamento estatístico sobre o setor, que se refere a 1995, indicava que o setor possuía cerca de 200 mil organizações e que participava com 1,5% do PIB. Nota-se um crescimento acelerado do setor na última e nesta década. Com relação ao emprego gerado, o terceiro setor, que absorvia cerca de 1,5 milhões de trabalhadores em 1995, hoje gera emprego para cerca de 5 milhões de pessoas.

Como se explica este crescimento?
Luiz Carlos Merege -
Esse crescimento recente do setor pode ser explicado por diversos fatores, tais como o retorno da democracia, a constituição de 1988, a decepção com os partidos políticos, a possibilidade que o setor abre para transformar indignação em ação, a grande divulgação pela mídia dos resultados apresentados pelo setor na resolução de problemas sociais, o envolvimento das universidades no processo de profissionalização da gestão do setor, a incapacidade do Estado de atender as demandas por serviços e bens públicos e a ausência do Estado nas periferias das nossas cidades, entre outras causas.

O que é o Mapa do Terceiro Setor do Brasil?
Luiz Carlos Merege -
O Mapa do Terceiro Setor é um projeto que tem como objetivo dar visibilidade às organizações do terceiro setor. Ele foi criado pelo CETS, em setembro de 2003, quando então se cadastraram 180 organizações. A idéia surgiu de outro projeto que o CETS começou a implementar em 1999: a realização de censos do terceiro setor para municípios brasileiros, já que não tínhamos estatísticas sobre o setor. Como a realização de censos implica em soma considerável de investimento, pois se necessita de equipes de pesquisadores que vão em busca de informações, criou-se então o Mapa, onde as organizações podem se cadastrar voluntariamente pela Internet no endereço www.mapa.org.br.

O CETS não faz mais censos municipais?
Luiz Carlos Merege -
A idéia da realização de censos não foi abandonada e surgiram projetos que foram realizados nas cidades de Maringá (PR), Juiz de Fora (MG) e Santos (SP). O maior trabalho censitário realizado foi para o Estado do Pará, cuja pesquisa de campo encerrou-se recentemente. Será o primeiro Estado brasileiro a possuir uma base de dados estatísticos sobre o terceiro setor, o que facilitará sobremaneira a inter-relação entre os três setores para a conjugação de esforços na resolução dos problemas sociais.

Estas informações de censos locais são aproveitadas também pelo Mapa do Terceiro Setor?
Luiz Carlos Merege -
O resultado dessas pesquisas acaba alimentando a base de dados do Mapa do Terceiro Setor, que já possui aproximadamente 5 mil e cem organizações cadastradas. Ainda não estão incorporadas as organizações pesquisadas no interior do Estado do Pará, que são cerca de 5 mil organizações, mas foram incluídas as organizações cadastradas na Região Metropolitana de Belém. O registro voluntário de organizações no Mapa atinge o número médio de 60 organizações por mês.

Qual a importância do Mapa para o Terceiro Setor?
Luiz Carlos Merege -
Este projeto contribuiu para que o IBGE se interessasse pela nossa metodologia assim como outros Estados, como foi o caso do Estado de Minas Gerais. Um dos nossos objetivos com tal projeto era exatamente apresentar o projeto como um desafio para que outros Estados realizassem tal pesquisa e quiçá o IBGE, que temos certeza fará tal levantamento em um próximo censo econômico de nosso País.

Que dados surpreenderam ao fazer o Mapa do Terceiro Setor de Belém?
Luiz Carlos Merege -
As informações agregadas sobre o terceiro setor da região metropolitana de Belém trazem inúmeras surpresas para todos que examinam o relatório, que está disponível no site do Mapa. Podemos citar algumas surpresas tais como: a) o grande número de organizações informais; b) o pequeno tamanho da maioria das organizações; c) a origem muito recente da maioria delas; d) o enorme número de voluntários; e) a considerável movimentação de recursos; f) a origem da maior parte dos recursos nas próprias organizações; e g) a pouca transferência de recursos governamentais e do setor privado para as organizações, entre outras constatações.

Como o senhor vê hoje o voluntário, a ação voluntária no Terceiro Setor, na transformação da sociedade?
Luiz Carlos Merege -
O voluntariado é uma grande força de suporte às ações do terceiro setor. Na região Metropolitana de Belém, por exemplo, em 2,2 mil organizações trabalham 18 mil pessoas e deste total 14 mil são voluntárias. Esse número impressionante de pessoas se dedicando voluntariamente a uma causa indica a vontade que nossa população demonstra para realizar transformações no campo social.

O que mais tem chamado sua atenção no voluntariado?
Luiz Carlos Merege -
As pessoas que se dedicam voluntariamente a uma missão através das organizações do terceiro setor se sentem compensadas. Por poderem ver resultados concretos de sua atuação ao promover o desenvolvimento de pessoas e de atuarem na proteção de nosso planeta. Para essas pessoas, que são mobilizadas pela sua sensibilidade humana, não existe outra área de atividade humana onde possam colocar suas vidas a serviço de uma causa.

Vale a pena então ser voluntário?
Luiz Carlos Merege -
Os voluntários são unânimes ao afirmar que recebem muito mais do que doam, já que nas atividades que desenvolvem recebem um reconhecimento imediato do público que atendem. O amor e o carinho dos atendidos em relação aos voluntários são impossíveis de serem mensurados e se constituem na energia que alimenta suas ações.

O que é o Centro de Estudos do Terceiro Setor?
Luiz Carlos Merege -
O CETS é uma área acadêmica criada com o objetivo de promover a profissionalização da gestão das organizações do terceiro setor. Para cumprir com tal missão, que foi pioneira no Brasil, idealizou cursos de Administração para o terceiro setor. Já passaram pelos cursos 2,5 mil participantes. Há três anos o CETS vem oferecendo um curso de especialização lato sensu, com 432 horas e que cumpre todas as exigência do MEC para cursos dessa natureza. Como resultado deste curso o CETS possui mais de uma dezena de trabalhos de conclusão que tratam de temas relacionados a gestão das organizações do terceiro setor.

O CETS edita também uma revista, não?
Luiz Carlos Merege -
Como atividade complementar o CETS se dedica a publicações e pesquisa. Na área de publicações o CETS criou a revista eletrônica IntegrAção em 1998, que é publicada mensalmente no site: www.fgvsp.br/revista. Trata-se de uma publicação semi-acadêmica que combina artigos com notícias sobre o terceiro setor. É uma fonte de informação para pesquisadores, dirigentes de organizações e o publico em geral. Em média a revista tem cerca de 70 mil acessos mensais de todo o Brasil e também do exterior, principalmente de paises da América Latina e alguns africanos. Na pesquisa, como já disse, o CETS vem realizando censos do terceiro setor em municípios e em Estados brasileiros, cujas informações aparecem no projeto do Mapa do Terceiro Setor.