Este é um dia de celebração. O voluntariado faz bem ao voluntário e a quem é beneficiado pela sua ação. O voluntário quebra sua rotina, conhece pessoas e situações e descobre habilidades insuspeitadas. Redescobre-se melhor do que achava. O beneficiário aperta a mão de uma pessoa para ele de outro mundo e descobre que os dois são do mesmo mundo. Cresce em autoestima vendo suas idéias e seu modo de resolver seus problemas respeitados e fortalecidos. Deixa de se conformar, não vê mais sua situação como destino imutável.

O voluntariado é um caminho de humanização (somos muito mais que consumidores vorazes e insatisfeitos e excluídos que não consomem nem o mínimo) e mudanças (mudanças pessoais no pensar e no agir, na minha rua, na escola dos filhos, na favelas das periferias de nossas cidades, no atendimento a vítimas de calamidades, na limpeza de rios, nas políticas públicas, na nossa democracia e onde mais desejarmos). É um caminho de melhor qualidade de vida.

O Dia Nacional do Voluntário é um dia de alegria. Pelo crescimento e qualificação do voluntário e do voluntariado. Contamos com uma rede nacional de centros e muitos sites de voluntários. O voluntariado entrou definitivamente na pauta da sociedade brasileira. Está presente no discurso e na prática de todos os níveis dos três poderes, especialmente do Judiciário e Executivo, assim como em organizações sociais, associações profissionais e empresas. Conquistou espaço permanente na mídia. Uma vitória que merece muita festa é o voluntariado estar hoje nas escolas, do ensino fundamental ao universitário.

O Conselho Nacional de Justiça lançou recentemente iniciativas de incentivo ao voluntariado relativas a presos, egressos prisionais e presídios – pessoas e locais que metem medo e por isso têm motivado poucos voluntários. Temos desde 1998, a Lei do Voluntariado. O Ministério do Meio Ambiente conta há alguns anos com voluntários nos parques nacionais. O Ministério da Saúde faz tempo bate na tecla da humanização do atendimento na saúde pública.

O voluntário hoje, na medida do possível, equaciona sua ação como complemento aos esforços que pessoas sem acesso à justiça e comunidades sem água fazem para superar suas dificuldades. Ele decide agir como parte do problema e da sua resolução. O que não é pouco num momento de individualismo e hedonismo exacerbados e de globalização financeira.

Os programas de voluntariado evoluíram enormemente instrumentalizando-se para conseguir resultados quantitativos e principalmente qualitativos. O brasileiro continua muito generoso. Proporcionalmente, dizem, somos mais generosos que os norte-americanos. E agrega agora à sua generosidade a consciência de cidadania, promovendo novos valores e novos comportamentos. Proclamam a dignidade do ser humano e dizem sim à cooperação e não à competição predatória. São como vírus a contaminar os companheiros de trabalho, a família, os amigos com quem joga futebol e muito mais.

As empresas percorreram uma bela trajetória: caridade – filantropia e investimento social privado. Incentivam cada vez mais seus empregados a praticar ações voluntárias. Parte apoia iniciativas voluntárias dos funcionários com dinheiro. Parte cria programas de intervenção, social, cultural, de geração de empregos e outros fins e convidam os empregados a apoiá-los com ações voluntárias. Uma rede de varejo de vestuário criou até a figura do voluntário do voluntário. Para valorizar as pessoas que não saíam das lojas e voluntariamente faziam um pouco mais para compensar a ausência dos voluntários.

Um pouco história

Há cerca de 20, 30 anos, no Brasil, com exceções, falava-se pouco em voluntário e voluntariado. A ação voluntária era considerada um ato individual, motivado em grande parte por sentimentos religiosos. Mesmo em grupos que, por exemplo, distribuíam comida a moradores de rua, a participação pessoal dava o tom.

As doações e os trabalhos em hospitais, asilos e outros locais tinham majoritariamente duas vertentes: no caso das doações, eu tenho mais e dou o que me não me faz falta para quem não tem e quem não conheço. Em relação à ação voluntária, prevalecia a visão assistencialista de minorar o sofrimento dos pobres.

Na administração pública, no mesmo sentido, proliferaram Fundos Assistenciais, que eram gerenciados pelas ‘primeiras damas’ – a mulher do prefeito e assim por diante. O mais famoso e o maior deles foi a extinta Legião Brasileira de Assistência, do governo federal, gerida pela esposa do presidente. As empresas, por sua vez, contentavam-se com doações. Os empresários diziam: “Todo ano dou tanto para as instituições de caridade. Cumpri minha obrigação”.

Evidentemente o voluntariado de fundação religiosa, caridoso, tem imensa riqueza. Existe há séculos, com muitos e preciosos serviços prestados, e continuará existindo. Há muita grandeza nas pessoas que visitam e conhecem pelo nome doentes, idosos, crianças abandonadas. Elas dão atenção a uma população que preferimos ignorar. Fortalecem-na com sua assiduidade, remédios, roupas, trabalhos de manicure e tantos outros. Os asilos, todo mundo sabe, ficam menos frios, cinzas e monótonos quando estes voluntários aparecem.

Quanto mais voluntários tivermos melhor. Cada um do seu jeito, no lugar que preferir e todos resgatando a dignidade humana.

Dez dicas sobre Voluntariado
Miguel Darcy de Oliveira
1. Todos podem ser voluntários
Não é só quem é especialista em alguma coisa que pode ser voluntário. Todas as pessoas capacidades, habilidades e dons. O que cada um faz bem pode fazer bem a alguém.
2. Voluntariado é uma relação humana, rica e solidária
Não é uma atividade fria, racional e impessoal. É relação de pessoa a pessoa, oportunidade de se fazer amigos, viver novas experiências, conhecer outras realidades.
3. Trabalho voluntário é uma via de mão dupla
O voluntário doa sua energia e criatividade mas ganha em troca contato humano, convivência com pessoas diferentes, oportunidade de aprender coisas novas, satisfação de se sentir útil.
4. Voluntariado é ação
Não é preciso pedir licença a ninguém antes de começar a agir. Quem quer, vai e faz.
5. Voluntariado é escolha
Não há hierarquia de prioridades. As formas de ação são tão variadas quanto as necessidades da comunidade e a criatividade do voluntário.
6. Cada um é voluntário a seu modo
Não há fórmulas nem modelos a serem seguidos. Alguns voluntários são capazes, por si mesmos, de olhar em volta, arregaçar as mangas e agir. Outros preferem atuar em grupo, juntando os vizinhos, amigos ou colegas de trabalho. Por vezes é uma instituição inteira que se mobiliza, seja ela um clube de serviços, uma igreja, uma entidade beneficente ou uma empresa.
7. Voluntariado é compromisso
Cada um contribui na medida de suas possibilidades mas cada compromisso assumido é para ser cumprido. Uns têm mais tempo livre, outros só dispõem de algumas poucas horas por semana. Alguns sabem exatamente onde ou com quem querem trabalhar. Outros estão prontos a ajudar no que for preciso, onde a necessidade é mais urgente.
8. Voluntariado é uma ação duradoura e com qualidade
Sua função não é de tapar buracos e compensar carências. A ação voluntária contribui para ajudar pessoas em dificuldade, resolver problemas, melhorar a qualidade de vida da comunidade.
9. Voluntariado é uma ferramenta de inclusão social
Todos têm o direito de ser voluntários. As energias, recursos e competências de crianças, jovens, pessoas portadoras de deficiência, idosos e aposentados podem e devem ser mobilizadas.
10. Voluntariado é um hábito do coração e uma virtude cívica
É algo que vem de dentro da gente e faz bem aos outros. No voluntariado todos ganham: o voluntário, aquele com quem o voluntário trabalha, a comunidade.