Saúde mental. O preconceito continua presente dolorosa e vergonhosamente, até em instituições de saúde mental. Aí é que entra o Teatro do Oprimido (TO). Oferecendo a doentes mentais oportunidades de manifestação e relacionamento concretos nas suas realidades familiares, comunitárias e outras. É o que conta nesta entrevista Geo Britto, coordenador nacional do Projeto Teatro do Oprimido na Saúde Mental e Curinga do Centro do Teatro do Oprimido.
O que é o Teatro Oprimido (TO)?
Geo Britto -Um método teatral que se baseia no princípio de que o ato de transformar é transformador. Busca, através do diálogo, restituir aos oprimidos o seu direito à palavra e de ser.
Quando surgiu?
Geo Britto - Depois de exilado pelo regime militar, o diretor Augusto Boal dedicou-se a pesquisar formas teatrais que pudessem ser úteis para oprimidos e oprimidas.
Como?
Geo Britto - Criando condições para ultrapassarem o papel de consumidores de bens culturais e assumirem a condição de produtores de cultura e de conhecimento. Para tanto, sistematizou o Teatro do Oprimido, que pode ser chamado também de Teatro do Diálogo.
Como funciona?
Geo Britto - Partindo da encenação de uma situação real, ele estimula a troca de experiências entre atores e espectadores. O objetivo é analisar e compreender a estrutura representada e buscar meios concretos para sua transformação. Boal sempre insistiu: as técnicas que compõem o TO não surgiram como invenção individual e sim como consequencia de descobertas coletivas, a partir de experiências que revelaram necessidades objetivas.
Como o TO chegou aos serviços de saúde mental?
Geo Britto - Iniciamos este trabalho em saúde mental praticamente desde a volta de Boal ao Brasil em 1986. Depois ele foi se concretizando. De 1993 a 1996, fui oficineiro de TO na Casa das Palmeiras. Em 2004 iniciamos uma parceria com o Ministério da Saúde, através da Coordenação Nacional de Saúde Mental (MS/CNSM). Ela nos apóia na capacitação dos trabalhadores da saúde mental na metodologia do TO.
Como se aplica na prática o método do TO?
Geo Britto - Trabalhadores da saúde mental são capacitados através de oficinas pelo CTO. Eles levam o TO para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e reaplicam o aprendido com os usuários, seus familiares e outros profissionais. Sempre se valendo de cenas de sua realidade. Existem cenas do preconceito na família, no trabalho, na escola, dentro dos CAPS…
O que é preciso para uma pessoa poder criar e trabalhar com grupos de TO em saúde mental?
Geo Britto - As oficinas do CTO são ministradas para profissionais da saúde mental, não importa a formação, pode ser psicólogo, psiquiatra, enfermeiro, porteiro, terapeuta ocupacional, musicoterapeuta, entre outros profissionais do CAPS.
Quais são os resultados mais palpáveis do TO no tratamento de pessoas com doença mental?
Geo Britto - Empoderamento dos usuários. Diminuição de medicação, maior participação das atividades do CAPS e na vida – por exemplo, até conseguir uma namorada.
Geo Britto - O projeto é nacional, envolvendo RJ, SP e SE. Como já falado, ele oferece a metodologia do TO para que os profissionais da saúde mental possam ter mais uma ferramenta de trabalho na busca da implantação da reforma psiquiátrica, que busca uma maior democratização da sociedade e melhores condições de vida para os usuários dos CAPS.
Como os psicólogos, psiquiatras, terapeutas e outros profissionais dos CAPS convivem com o TO?
Geo Britto - Não existe uma adesão maior ou menor deste ou daquele profissional. Todos participam, uns mais ou outros menos, não pela profissão, mas por questões próprias do serviço. Geralmente os CAPS têm poucos psiquiatras e quando estes fazem a capacitação acabam tendo pouco tempo para aplicar o aprendido.
Quais são os principais parceiros e apoiadores do Projeto TO em Saúde Mental?
Geo Britto - Nacionalmente, o Ministério da Saúde, como explicado antes. E contamos com apoios locais, como os das Secretarias de Saúde de Guarulhos e Santos, em SP, e Macaé, no RJ. Em Aracaju recebemos apoio das secretarias do Estado de Sergipe e de Aracaju.
Há lugar para trabalho voluntário no TO em saúde mental?
Geo Britto - Não sei, apoio sempre é bem vindo. Mas depende do que exatamente se quer fazer. Ajudar na divulgação e produção talvez fosse interessante.
Por que o Teatro do Oprimido, nascido da dura realidade brasileira, ganhou o mundo?
Geo Britto - Porque a dura realidade brasileira não é única no mundo. Guardadas as diferenças, o mundo de hoje continua sendo uma dura realidade para a grande maioria dos seres humanos. Assim o TO consegue ter uma adesão dos oprimidos que existem, e muito, em todo o mundo.
Mais informações
- Centro de Teatro do Oprimido.
- A Casa das Palmeiras é uma instituição psiquiátrica idealizada por Nise da Silveira. É um pequeno território de relações humanas afetivas e de atividades criadoras onde os clientes têm a oportunidade de, espontaneamente, realizarem seus trabalhos expressivos facilitando a entrada em contato com a vida.
- CAPS.



"VM3Consultoria":
Parabéns pela idéia,gostei demais são ações como essa que deve acontecer a todo momento,gostária de ter uma camisa dessa,e digo sempre "NÃO IMPORTA A DISTÂNCIA O QUE IMPORTA É A DISPOSIÇÃO".