Utilizando elementos da cultura hip-hop (Break, DJ, Rap e Grafite) o Arte Favela envolve jovens, entre 12 e 19 anos no estudo da arte contemporânea e soma pontos contra a violência na Vila Presidente Vargas, periferia de Belo Horizonte.
O projeto é ligado à Associação Comunitária VIVA e foi fundado em 2003, como continuação do trabalho do artista plástico Hely Costa, hoje coordenador do projeto.
Em 2004, o projeto recebeu financiamento da Lei Estadual de Incentivo à Cultura para desenvolver oficinas de grafite/desenho, rap e break. O quadro de oficineiros é composto pelos próprios jovens, o que atende a um dos objetivos do projeto – o de geração de renda. De acordo com o coordenador, a missão do Arte Favela é gerar artistas multiplicadores, em uma perspectiva de profissionalização, e valorizar a arte e a cultura da periferia.
O Arte Favela começou em 2003. Como surgiu a iniciativa e qual é seu principal objetivo?
Hely Costa - Num domingo, em uma esquina próxima de minha casa, no bairro Goiânia, comecei a desenhar no papel algumas caricaturas dos jovens que ali ficavam. A partir daí, houve um interesse dos jovens em aprender a desenhar e todos os domingos nos reuníamos nessa mesma esquina, onde houve trocas de informações e mostras de desenhos diversos. Chegou um momento em que a rua já não tinha tanto espaço para realização das oficinas de desenho devido ao número de participantes interessados. Foi então, que surgiu um convite para ocupar um espaço ocioso de uma sala no Centro de Saúde do bairro. O convite partiu da gerente do Centro de Saúde, a qual gostava de assuntos relacionados à arte e se preocupava com as questões sociais envolvendo jovens da comunidade. A partir desse evento foi apresentado à Comunidade da Vila Presidente Vargas, no mesmo bairro, um projeto de caráter artístico-cultural, o pontapé inicial que despertou para uma iniciativa maior e de interesse comunitário chamada Arte Favela.
O objetivo principal é oportunizar atividades, bens e serviços culturais a jovens oriundos de vilas e favelas criando um pólo artístico que valorize e fortaleça a sua identidade cultural.
Por que a escolha da cultura Hip Hop para trabalhar com os jovens?
Hely Costa - O Hip Hop é uma cultura ligada à vida urbana e que é identificada na identidade cultural de jovens que moram na periferia. Acho que por isso gera motivação e entusiasmo nos participantes pelas oficinas.
Onde o Arte Favela desenvolve os projetos?
Hely Costa - Na comunidade da Vila Presidente Vargas, bairro Goiania, Região Nordeste de Belo Horizonte.
Quantos jovens são beneficiados pelo Arte Favela? Qual é a faixa etária e o perfil destes jovens?
Hely Costa - Os participantes do Arte Favela são jovens entre 12 a 29 anos de ambos os sexos, com baixa escolaridade, moradores de vilas e favelas e que tenham o desejo de desenvolverem seus conhecimentos relacionados à arte e à cultura.
O que é preciso para participar das oficinas e projetos do Arte Favela?
Hely Costa - Não há processo de seleção e a participação é voluntária. Não há preocupação com número de participantes e sim com o desenvolvimento de redes entre pessoas. Participam também jovens que não moram nas comunidades menos favorecidas, bastam gostarem e contribuirem com a proposta do Arte Favela.
Que tipo de atividades o projeto oferece a esses jovens?
Hely Costa - Grafite e artes visuais, Literatura, Rap e Desenho Animado.
O grafite ainda é visto com pichação? Como modificar essa imagem?
Hely Costa - No meu ponto de vista, acho que a pichação/grafite é um elemento de manifestação que atinge diretamente a sociedade, pois contradiz as leis. Isso gera um desafio para o pichador e sua reputação é valorizada diante outros pichadores. Se observarmos um grafite em lugar proibido, nem sempre entendemos como pichação, pois achamos um trabalho bonito e que de repente não agride visualmente. Por outro lado, quando o grafite é criado com uma plástica e com informação sobre a proposta levando ao observador a pensar, o grafite deixa de ser um vandalismo e se torna uma criação.
Fale um pouco sobre o Arte Favela nos Becos.
Hely Costa - O Arte Favela nos Becos são exposições em becos de Vilas e Favelas de Belo Horizonte de telas grafitadas com temas relacionados à história da arte brasileira. São releituras de obras e acontecimentos históricos a partir de estudos e a percepção plástica dos jovens artistas entrelaçadas a cultura Hip Hop e questões sociais relacionadas à juventude da periferia.
Como foi a receptividade dos moradores quando vocês transformaram os becos da comunidade em galerias de arte?
Hely Costa - Participaram tanto pessoas convidadas na comunidade quanto pessoas que moram em outros lugares, inclusive parentes e amigos dos artistas e moradores de outras comunidades.
O projeto superou as expectativas. Cada comunidade recebeu com respeito e admiração todos os trabalhos. Acharam que foi uma novidade e que era uma coisa que, até então, não havia acontecido em suas comunidades.
A exposição foi recebida com alegria e curiosidade. Muitos moradores queriam que as fachadas de suas residências servissem como bases para a instalação das obras. Muitos moradores procuraram saber se os quadros estavam à venda e até pediam para deixá-los na comunidade.
Os quadros se destacaram nas moradias e coloriu os becos. Com isso os moradores se sentiram pessoas mais importantes. Houve manifestações de moradores querendo maior número de quadros nas fachadas de suas casas.
Os jovens se sentiram respeitados pela comunidade. Muitos moradores e familiares dos jovens elogiaram os trabalhos em todas as comunidades. Com isso os jovens se sentiram importantes, o que pode ser uma motivação para o desenvolvimento de atividades culturais e artísticas nas comunidades e, consequentemente, gerar desenvolvimento social.
Como foi misturar o Modernismo com o grafite?
Hely Costa - São temas que se identificam com a realidade social dos jovens participantes do Arte Favela. O Modernismo no Brasil é um marco na história da arte brasileira e que tenta democratizar a arte e o acesso a ela. O Grafite não é diferente, é uma arte de rua e todos podem ver, criticar e participar.
Como o Arte Favela se mantém? Vocês desenvolvem parcerias?
Hely Costa - O Arte Favela é incentivado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Tem como parceiros o Instituto Vivo, Banco Mercantil do Brasil, Via Social Consultoria, Favela É Isso Aí, AIC – Associação Imagem Comunitária, E. M. Maria Assunção de Marco, os voluntários advogados Robert Sales Roque e Renato Donabella e outros mais.
Que mudanças vocês percebem nos jovens que participam do Arte Favela? O que mudou nesse tempo de trabalho da instituição?
Hely Costa - Acho que no intelecto. Observa-se uma manifestação cultural e de informação que ajudam os jovens a perceber o seu papel diante da sociedade atual de maneira colaborativa e espontânea. Acredita-se que a arte e a cultura são os instrumentos de formação social e desenvolvimento pessoal que colabora com isso.
O projeto aceita voluntários? O que deve fazer quem quiser ajudar?
Hely Costa - Sim. É só enviar um e-mail para artefavela@yahoo.com.br oferecendo-se como voluntário.
Quais são as próximas atividades do Arte Favela?
Hely Costa - O Núcleo de Animação Arte Favela e o lançamento do CD Ritmo e Poesia.


